Cavalo

Escrito por vocabpol em 21122014 Categorias: conversa, criação, diagrama, oficina

Diagrama do Cavalo

 

cavalo_novo diagrama azul

 

Cavalgar em La Borde

// Félix Guattari

 

(…)

Nessa mesma via de compreensão polifônica e heterogenética da subjetividade, encontramos o exame de aspectos etológicos e ecológicos. Daniel Stern, em The Impersonal World of the Infant, explorou notavelmente as formações subjetivas pré-verbais da criança. Ele mostra que não se trata absolutamente de “fases”, no sentido freudiano, mas de níveis de subjetivação que se manterão paralelos ao longo da vida. Renuncia, assim, ao caráter superestimado da psicogênese dos complexos freudianos e que foram apresentados como “universais” estruturais da subjetividade. Por outro lado, valoriza o catáter trans-subjetivo, desde o início, das experiências precoces da criança, que não dissocia o sentimento de si do sentimento do outro. Uma dialética entre os “afetos partilháveis” e os “afetos não-partilháveis estrutura, assim, as fases emergentes da subjetividade. Subjetividade em estado nascente que não cessamos de encontrar no sonho, no delírio, na exaltação criadora, no sentimento amoroso…

A ecologia social e a ecologia mental encontraram lugares de exploração privilegiados nas experiências de Psicoterapia Institucional. Penso evidentemente na Clínica de La Borde, onde trabalho há muito tempo, e onde tudo foi preparado para que os doentes psicóticos vivam em um clima de atividade e de responsabilidade, não apenas com  objetivo de desenvolver um ambiente de comunicação, mas também para criar instâncias locais de subjetivação coletiva. Não se trata simplesmente, portanto, de uma remodelagem da subjetividade dos pacientes, tal cmo preexistia à crise psicótica, mas de uma produção sui generis. Por exemplo, certos doentes psicóticos de origem agrícola, de meio pobre, serão levados a praticar artes plásticas, teatro, vídeo, música, etc quando esses eram antes Universos que lhes escapavam completamente.

Em contrapartida, burocratas e intelectuais se sentirão atraídos por um trabalho material, na cozinha, no jardim, na cerâmica, no clube hípico. O que importa aqui não é unicamente o confronto com uma nova matéria de expressão, é a constituição de complexos de subjetivação: indivíduo-grupo-máquina-trocas múltiplas (des //dobramento / s ), que oferecem à pessoa possibilidades diversificadas de recompor uma corporeidade existencial, de sair de seus impasses repetitivos e, de alguma forma, de se re-singularizar.

Assim se operam transplantes de transferência que não procedem a partir de dimensões “já existentes” da subjetividade, cristalizadas em complexos estruturais, mas que procedem de uma criação  e que, por esse motivo, seriam antes da alçada de uma espécie de paradigma estético. Criam-se novas modalidades de subjetivação do mesmo modo que um artista plástico cria novas formas da palheta que lhe dispõe. Em um tal contexto, percebe-se que os componentes os mais heterogêneos podem concorrer para a evolução positiva de um doente: as relações com o espaço arquitetônico, as relações econômicas, a co-gestão entre o doente e os responsáveis pelos diferentes vetores de tratamento, a apreensão de todas as ocasiões de abertura para o exterior, a exploração processual das “singularidades” dos acontecimentos, enfim tudo aquilo que pode contribuir para a criação de uma relação autêntica com o outro. A cada um desses componentes da instituição de tratamento corresponde uma prática necessária. Em outros termos, não se está mais diante de uma subjetividade dada como um em si, mas face a processos de autonomização, ou de autopoiese, em um sentido um pouco desviado do que Francisco Varela dá a esse termo.

(…)

Fonte: Felix Guattari. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34, 2006. (p. 16-18)

O título “Cavalgar em La Borde” foi atribuído por Cristina Ribas.

 

Antolhos

// Félix Guattari

 

“ […]  coloquem em uma área fechada cavalos com antolhos reguláveis: o coeficiente de transversalidade será justamente o ajuste dos antolhos. Imagina-se que se forem ajustados de modo a tornar os cavalos completamente cegos, se produzirá um certo encontro traumático. À medida que se for abrindo os antolhos, pode-se imaginar que a circulação se realize de modo mais harmonioso. […] de maneira que os homens se comportem uns em relação aos outros do ponto de vista afetivo.”
Félix Guattari , “ Transversalidade”, em Revolução Molecular, 1981, p. 96. Citado por Ricardo Basbaum em “Em torno do ‘vírus de grupo’”, artigo publicado na revista Lugar Comum 30, Rio de Janeiro, Universidade Nômade e UFRJ, 2012.

 

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A autora da foto não pediu autorização para fotografar.
Passarela 7, Avenida Brasil, entre Maré e Bonsucesso, Rio de Janeiro, Abril de 2014.
Foto: Cristina Ribas

 

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Ato Unificado “Copa pra quem?”, organizado pelo Comitê Popular da Copa, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, e a Articulação dos Povos Indígenas (APIB) Brasília, 27 de maio de 2014.
Foto: Mídia Ninja

 

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Ju saltando (Juliana Dorneles).

 

Poema do Cavalo

// Daniela Mattos

 

com força cavalar e gentil
o olhar do cavalo
bebe o ar e o faz atravessar fluxos
come e mastiga, senta na língua o que irá digerir com todo o corpo
lambe os fragmentos que seu desejo lhe mostra, transforma-os fazendo esfarelar
na boca

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Complexidade

Escrito por vocabpol em 20122014 Categorias: cartografia, conceito, conhecimento, diagrama

Complexidade

// Cristina Ribas

Parêntesis de Anamalia Ribas

“Quem diz a verdade? Esta não é mais a questão, mas sim a de saber como e em que condições pode melhor aflorar a pragmática dos acontecimentos incorporais que recomporão o mundo, reinstaurarão uma complexidade processual.” Félix Guattari, Caosmose: um novo paradigma estético, 1992

“Todos aqui devem ter tido a experiência – eu, pelo menos, a tenho frequentemente  – do contraste entre a descoberta da complexidade, da riqueza, da diferenciação que se pode ter entre numa experiência onírica e a pobreza de meios que se tem ao despertar, quando se tenta expressar essa produção onírica pela rememoração, pela escrita ou pelo desenho. Aqui, eu me permitiria questionar toda referência à indiferenciação, toda referência às mitologias espontaneístas: toda vez que conseguimos agenciar dispositivos de expressão que escapam ao despotismo do sistema das significações dominantes, que escapam à articulação de todas as sintaxizações dominantes, estamos justamente lidando com maquinismos altamente elaborados.” Félix Guattari e Suely Rolnik, Micropolíticas: cartografias do desejo,  1986

Complexidade. (…) 3 Psicol Experiência em que se encontrem unidos elementos de espécies diversas. 4 Em psicanálise, grupo de ideias impregnadas de força emotiva, as quais produzem atividades inconscientes. Dicionário Michaelis

“Apenas a intersecção do finito e do infinito, no ponto de negociação entre complexidade e caos, será possível desenroscar graus de complexide mais altos dos que o capitalismo financeiro é capaz de gerenciar e elaborar.” Franco Bifo Berardi, The Uprising: on poetry and finance, 2012

Por onde entrar? Num vocabulário de vozes, numa produção de sentidos, num rizoma de textos? Pode ser que nem percebamos uma transição, e de repente já estamos dentro. A coisa é perceber que vamos entrando – que já somos – parte  de um bom pedaço dessas vozes. A coisa é perceber como é que vamos entrando – como é que já somos – um bom pedaço dessas vozes. Folheamos procurando um pouco de identificação, mas também um pouco de acaso ou de enfrentamento a uma coisa que dominamos, um conceito que nos toca, uma prática que apelidamos. Por vezes percebemos um contraste, visto que as vozes falam de um jeito que não concordamos, não daquela maneira, então nos despojamos daquilo. Identificamos um regime de falas que não nos interessa. Nesses casos a porta de saída é mais fácil do que a expectativa da entrada.

Talvez nem no primeiro modelo da adesão completa, nem no segundo da separação por regimes, os vocabulinários não tenham limites precisos, e trabalhem abrindo zonas, expondo zonas de contaminação e criando intervenções nos nossos vocabulários.  Os vocabulários partilham de um espaço pleno de complexidade. Esta é, então, uma maneira de pensar a complexidade.

 

Complexo do Self

Olha isso. Eu digo. Olha esse  “Complexo do Self”. Bureau D’Études(*) é uma dupla de artistas-cartógrafos-diagramadores.  No diagrama do Complexo do Self vemos vários duplos nominados ao lado da representação de cabeças-tronco gordinhas, tipo João-bobo (vou chamá-los de João-bobo). O duplo Admistrativo, o duplo Econômico, o duplo Eletromagnético, o duplo Biológico, o duplo Psicológico, o duplo Semiótico, o duplo Metafísico. Duas alteridades são sinalizadas em Joãos-bobo em branco: alteridade Metafísica e alteridade Biológica. Nas pontas de cada percurso que parte das cabeças-tronco estão formas exagonais que expõe os diversos números que serializam as pessoas no mundo contemporâneo e, portanto, nos identificam. Número de identidade social, número do carro, número do sistema de saúde, número do telefone, número do consumidor (o cartão do banco), número do cartão de compras do supermercado, entre outros. Tarjas pretas indicam os complexos aos quais aqueles processos pertencem: complexo industrial da mídia, complexo industrial da produção de comida, complexo industrial da justiça, complexo industrial das roupas, entre outros. De que se trata? De um diagrama de um sujeito abstrato (( Aqui não está claro para mim o uso do abstrato ??? Porque abstrato, visto que ele é tão multifacetado, ele é tão multi que ao mesmo tempo não é. Pois não é em si. Ele só é na relação, com os fluxos, com o outro, com o duplo. Abstrato no sentido de que algo que não se identifica??? )) , dos fluxos materiais e virtuais que atravessam sua existência, desde um “eu aceito viver com roupas”, “eu uso alguma planta nuclear para produzir energia” a “eu produzo uma criança”.  O “Eu” expressa as muitas vozes num sujeito hipotético que assume diversos estados e verdades (( Não caberia colocar aqui também: assume papéis e valores? )). É quase como se não houvesse um sujeito, visto que não está congelado (( É um sujeito multifacetado, não é sujeito em/de si, ele é assujeitado…)) .  Ele está sempre relacionado aos seus diversos duplos. A cartografia explicita que esse “Eu” perpassa diversas definições ou realizações de si.  Abaixo do hexágono do duplo Semiótico, por exemplo, se lê  “ ‘Eu’ é uma ficção linguística”, e ao lado do duplo Administrativo se lê “ ‘Eu’ é uma produção social”.

Se é possível que nos reconheçamos eventualmente numa dessas posições (por transdução), é possível que criemos também outras linhas e outros processos de subjetivação que multiplicam essa cartografia de um “eu” (excesso).  Às vezes podemos perceber que estamos “entre” funções, visto que somos agenciados por dois (ou mesmo mais) movimentos. Esta coisa que acontece entre, que podemos chamar de agenciamento, tanto pode nos colocar em uma situação de imobilidade ou de impasse, ou pode nos fazer ativos. A partir da percepção de fluxos e de agencimentos, sejam eles mais ou menos autoproduzidos, se produzem “eus-transicionais.” A cartografia Complexo do self coloca em evidência o não isolamento de um indivíduo. Coloca em evidência as significações e as codificações que se imprimem a partir de sua existência e que se projetam em sua identidade-corpo. Ficamos atentos aos processos sociais, instituicionais, econômicos que se produzem a partir de sua vida. Ficamos atentos para o aparato que se constrói ao redor do sujeito (assujeitado). Mas também pode ser que olhamos para essa superfície complexa buscando os espaços e as trajetórias de improvisação e singularidade, ou, em como cada um faz uma vida para si, à sua maneira.

Descrevo extensivamente essa cartografia como maneira de ler coletivamente, de ler para meus olhos e para os seus. A cartografia ativa os pontos por onde passa. Descrevo num ímpeto de desarquivo (RAD). Faço isso porque, em primeiro lugar, me interessam muito essas imagens de complexidade, pela maneira como mostram ou revelam relações invisíveis (porém ativas) em vários processos materiais e ou subjetivos (( Estas relações/tensões invisíveis são como campos de subjetivação, campos do possível )).  Em segundo, ao mesmo tempo que permitem uma leitura que me anima, me sinto no intento de me aproximar delas, visto que “lê-las” se torna tarefa de esforço: meus olhos astigmáticos e minha dislexia migram rapidamente  milímetro a milímetro para a informação seguinte, perseguindo as linhas e refazendo a complexa conjunção de nomes, conceitos, símbolos, sentidos, funções. Desejo ler a complexidade na sua totalidade. Ler sem os antolhos de que falou Félix Guattari – Cavalo.

O tipo de flickering (vibração) que a cartografia de complexidade quer provocar é o exercício do olhar de não olhar só para uma coisa, mas ao olhar para essa coisa saber que ela é parte de uma multiplicidade de coisas. Como se fosse embaralhar esse próprio texto e rediagramá-lo a partir dos conceitos que ele mobiliza, para assim expor os campos em cruzamento nessas ideias sobre complexidade.”

bureau d etudes small

Símbolos catastróficos do desenvolvimento / formas de resistência nativas

Copiei essa frase do mapa feito pelo projeto Cartografia Crítica da Amazônia. (2)

A prática do mapeamento ou da cartografia (o fazer dos mapas de complexidade) tem se difundido como estratégia, proporcionando ao trabalho coletivo o desenvolvimento de formas de expressão que operam intervenções. Diversos movimentos auto-organizados da sociedade têm feito uso da cartografia para apresentar tanto a complexidade das relações que envolvem suas lutas como para mapear as forças em ação contra as quais resistem. Pela afirmação de que a cartografia não é representação encontramos uma provocação: a cartografia procura produzir efeitos no momento mesmo em que é feita, por isso ela tem o desafio de ser cartografia de intervenção. Ou seja, não representar não é um ato enunciativo, é um princípio da estratégia dessa prática, é colocar a cartografia ela mesma em estado de experimentação junto com as lutas, fazendo uma crítica às representações das lutas sociais e abrindo um espaço de composição. A pesquisa acadêmica não crítica, como exemplo, pode ficar no nível de uma representação e ativar poucas intervenções, a prática de um artista também. Como ativar, então, a representação, transformando-a em apresentação ou em produção?

Considerando que comecei esse texto falando de um ‘complexo do self’, uma pergunta que podemos fazer à cartografia como ferramenta é: de que maneira a cartografia é provocadora de processos de singularização ao mesmo tempo em que provoca uma análise crítica de um sistema econômico e político que é necessário enfrentar?

A prática da cartografia como construção da complexidade é, sem dúvida, também uma intervenção na forma de acessar e produzir conhecimento, o que pode nos levar a inflexionar a expressão “produção do conhecimento” para uma “prática do conhecimento”, como versão mais radical, mais autonomizante daquela primeira.  Assim, faz parte da construção de uma cartografia estabelecer seu objetivo (ou sua função), trabalhar o levantamento dos dados que constitui o conteúdo propriamente dito do mapa a ser criado, e conceber a forma que a cartografia vai tomar.  Faz parte da cartografia, portanto, incorporar a investigação ela mesma, visto que ao invés de trabalhar apenas com dados já coletados em pesquisas institucionais ou disponíveis na mídia, a investigação pode ser feita pelos próprios participantes. A cartografia pode então envolver as próprias pessoas a partir das quais a cartografia acontece e pode ser realizada com informações de ordem mais subjetiva, sendo os dados que a compõe coletados entre aqueles que a realizam, a partir de suas experiências de vida, de seus vocabulários, de suas lutas.  Nesse sentido a cartografia procura ser constitutiva do próprio cartógrafo-pesquisador, visto que a cartografia induz uma quebra na dicotomia pesquisador-pesquisado. Podemos centrar aqui, nesse lugar corpo-do-pesquisador(a)  a mudança de paradigma que a cartografia vem provocar. (1)

Ao aportar a composição do mundo como complexa, ao assumir a capacidade do desenho das forças de ação, o ‘investigar’ e ‘fazer o mundo’ se colocam então como operações que acontecem juntas. Ou seja, o conhecer e reivindicar do mundo que não passa apenas pela representação dele, mas pela criação dele. O trabalho da complexidade vai contra uma certa preguiça ou certo poder da ciência moderna, que procurava simplificar os processos em sistemas, em modelos (( Eu diria até: modelo que funciona no “colocar à prova”, refazer o que o anterior teria feito, e assim ver se dali algo mais de decifrava… Processo que só fomenta o funcionamento do capital competitivo, comparativo, segregador, produtor de certo/errado, bom/ruim, adequado/inadequado. É um modelo de processo ensino-aprendizado que faliu, não mais se sustenta )) .  Ao aportar a noção de complexidade abrimos caminho para pensar também a singularidade, desde a individualidade à coletividade. O processo de singuralização pode competir ao cartógrafo ele mesmo, assim como àqueles que participam da cartografia, identificados ou não com um processo de grupo.
(( Processo de ensino-aprendizado desejante de maior horizontalidade nas relações, estabelece novas formas de relações de poder, visto que procura uma radicalização das redes, é mais democrático, é um processo que abre para outro ou para outros processos. ))

Diversas complexidades têm sido cartografadas e diagramadas na atualidade por pesquisadores, nômades, ativistas, artistas, coletivos, agrupamentos efêmeros, entre outros, como maneira de lidar com essa trama/problema. Hoje em dia mapas, cartografias e diagramas, desenhos, planos táticos, se confundem e contaminam-se uns aos outros nos seus modos expressivos e nos seus modos de fazer. No vocabulário das práticas políticas e estéticas há uma pedagogia crítica que é inerente à construção dos mapas táticos, que é o  f a z e r dos mapas ele mesmo. Dessa maneira trabalham por exemplo o coletivo-dupla Iconoclasistas (Argentina) (3), os projetos mobilizados por Pablo de Soto, Mapping the commons (4), a rede LabsurLab na América Latina (5), Antena Mutante (Colômbia) (6) a própria dupla já citada Bureau D’Études (França), e muitos mais. Pelo trabalho desses grupos vemos como os agenciamentos do capital se expressam na perda dos direitos civis básicos, por exemplo, como no caso das remoções de moradia no Rio de Janeiro, ou por outro lado pela inventividade e pela ressignificação de espaços comuns como no projeto Mapping the Commons, de maneira  a fortalecer processos de resistência nos direitos de uso à cidade, resistinto aos processos de revitalização e transformação das cidades em cidades-mercadoria.

Capitalismo cognitivo

Não sei se a complexidade se opõe à ideia de simplicidade. São regimes diferentes, pode-se dizer. Um nem antecipa o outro. Nem pressupõe. Se temos uma ou mais linhas traçadas em um papel e uma quantidade x de informações conectadas por essas linhas diagramadas, temos uma cartografia que apesar de parecer simples, pode ser de razão complexa. Parece então que uma cartografia ou um diagrama podem ser simples mas tratarem de uma complexidade tal que possamos ir lendo nela níveis de imbricação de relações e fluxos, materiais e imateriais, visíveis e invisíveis, conhecidos e desconhecidos (( São como vias de mão dupla, vias de ida e vinda, relação de fluxos que não tem direção exata, relação correta, são pragmáticas, elas se cruzam em uma esfera tridimensional, em 3D, provocando que o sujeito se implique de tal forma ao desassossego, ao não dito, não compreendido, não nomeado, e assim procure reinventar conceitos, nomes, para aquilo que surge )) . Há nessa coisa, seja ela simples ou confusa, uma função de complexidade, uma função complexa. Assim é que o dia a dia de nossas vidas é tomado por uma série de ações simples, mas que escondem uma trama deveras complexa… (conecta com escrever) Olho o boleto impresso termicamente que seguro em minhas mãos ao retirar o extrato do banco, olho o recorte da embalagem do sanduíche que eu comprei, olho para meus sapatos que acredito serem meus, olho o sensor de presença que acende a luz na calçada de noite.

A complexidade pode ser um aparato conceitual para definir o modo de operar da economia  na era mais avançada do capitalismo contemporâneo, que se cola aos fluxos vitais, aliando-se à própria produção do desejo. Não por acaso, o trabalho da construção da complexidade surge no momento em que são provocados muitos cruzamentos entre disciplinas, entre campos do saber e, em que o estruturalismo como forma de constituição do mundo precisa ser decomposto, e outras formas mais rizomáticas precisam assumir seu espaço. Assim é proposto, por exemplo, que os micro agenciamentos sejam intervenções, ou atravessamentos, nos macro agenciamentos. Que a molecuralidade seja uma força que opera de outra maneira, diferente da majoritária molaridade. A partir de conceitos como esses se deseja re//dimensionar os fluxos vitais, a partir dos agenciamentos maquínicos, libertando-se das formas micro fascistóides, patriarcais, moralizantes, tecnicistas…

Uma das tarefas da cartografia de complexidade na atualidade é ser  uma ferramenta que trabalha  na decodificação dos fluxos invisíveis do capital, de modo a entender o que é que caracteriza o capital hoje, diferente de antes – antes do trabalho como imaterial, antes do capital como financeiro. Sua relação com o estado, com o poder representativo, e a forma como isso imprime modos de vida, direitos, exclusões, obrigações, privilégios, etc.

Segundo Franco Bifo Berardi, em The Uprising (O Levante), o que muda a partir do final da década de 70 na economia é a relação entre tempo e valor.  Ou seja, há uma perda de relação direta, ou material, entre tempo de trabalho e valoração, significando uma mudança na forma de agregar valor ao que é produzido, e da mesma forma ao lucro sobre a produção. A des-relação direta entre tempo de produção e produto (o que não significa o desaparecimento do trabalho por hora!), em que o trabalho já não é físico, muscular ou industrial, aumenta o contraste entre coisas materiais e signo, sendo o signo aquilo que mais se produz na atualidade. O signo adquire mais valor do que a matéria ela mesma. Essa produção Bifo chama de uma produção essencialmente semiótica. Ele pede que pensemos quanto tempo é necessário para produzir uma ideia, um produto, uma inovação. Bifo diz também que o capitalista não se preocupa se está produzindo frangos, livros ou carros. O que é importante para o capitalista é produzir lucro!

Se uma primeira fase do capitalismo seria essa da desracionalização entre a medida e a valoração, a segunda fase, ou uma fase moderna tardia, para Bifo é uma em que  a informação entra com tudo, o que ele chama de “abstração digital”. Nessa fase, há um aumento significativo do intercâmbio produtivo entre “máquinas informacionais” em lugar do e um campo dos corpos, de corpos ou vidas produtivos.  Nessa fase tardia ele diz que os corpos estão “cancelados” do campo da comunicação (direta, conjuntiva) e estão separados, ou “conectados” por informação. Nesse ponto ele vê uma reversão maior, ou uma perversão, eu diria.

“No sistema industrial anterior descrito por Marx, a finalidade da produção já era a valorização do capital, através da extração de lucro a partir do trabalho.  Mas, de maneira  a produzir valor, o capitalista ainda era obrigado a trocar coisas ‘úteis’ , ele era ainda obrigado a produzir carros, e livros e pão.

Quando o referente é cancelado, quando o lucro é feito possível pela mera circulação de dinheiro, a produção de carros, livros e pão se torna supérflua. A acumulação de valor abstrato é feita possível pela sujeição de seres humanos ao débito, e através da depredação de recursos existentes.  A destruição do mundo real começa com a emancipação da valorização da produção de coisas úteis, e da auto-replicação de valores no campo financeiro. A emancipação do valor do referente leva à destruição do mundo existente. Isso é o que acontece atualmente sob o que se chama de ‘crise financeira’, que não é de maneira alguma uma crise.”

Bifo fala de uma destruição do mundo também no sentido das relações sociais existentes. Ele ressalta que no capitalismo financeiro a violência se torna uma forma de controle. E a violência predatória é então uma que se coloca diretamente no corpo dos trabalhadores e trabalhadoras, não só como reflexo do recrudescimento da democracia –  na redução do direito à manifestação por exemplo – , mas também na violência sobre os processos vitais, na segmentarização da vida em detrimento do trabalho, e na perda de relações afetivas comunitárias e na impossibilidade da constituição redes de solidarização.

Então, no caminho do aumento da abstração, da abstração e do endividamento tomando conta dos processos vitais, ele identifica um aumento da informação que leva à produção de menos significado. Ou seja, há uma maior quantidade de signos circulando, mas eles têm menos referentes reais do que nunca. O aumento da circulação e o modo da circulação provocam a eliminação do significado e do sentido, que nos trazem a dúvida recorrente que pode tomar alguns de nós, ao tentarmos deter em nossas mãos o sentido da produtividade do que fazemos, seja na arte ou seja na política, de afinal, o que é que estamos fazendo ao produzir, ao trabalhar?

Assim a cartografia de complexidade pode servir para reverter o trabalho dos signos. Nesse sentido a cartografia pode trabalhar a singularização e a politização dos signos, de maneira a fazer  entender o que é que nos toma hoje, em que atmosfera/s vivemos nossos próprios fluxos produtivos, e de que espaços e modos de significação podemos estar querendo escapar, de maneira a apresentá-los, visualizá-los, relacioná-los. Os fluxos invisíveis do capital se colocam presentes em nossas vidas sem se descolar de cada uma de nossas operações cotidianas, ou dos nossos fluxos de desejo. Tomando a complexidade como ferramenta de estudo do capitalismo contemporâneo e ao mesmo tempo de resistência podemos perceber, então, que se o capitalismo avançou e complexificou as linhas, migrações, passagens, sobrecodificando e co-produzindo a vida, é inerente à própria vida uma tal rizomática que é, por sua vez, perseguida e significada pelo capitalismo.

É algo que nos coloca de volta na cartografia Complexo do Self, da dupla Bureau D’Études, por exemplo – que já realizou inúmeras outras cartografias dos fluxos econômicos e de significação correntes no capitalismo contemporâneo.  No Brasil o projeto Proprietários do Brasil (8) tem uma empreitada semelhante, abrindo as contas de grandes empresas brasileiras e de seus fluxos econômicos.

Há algo presente desses fluxos na pasta de dentes que eu uso pela manhã, no café que eu tomo para trabalhar, no emprego que eu não tenho, no transporte que eu uso, na reunião que eu fiz enquanto almoçava, no valor que cobro pelo meu trabalho, no cinema que eu não vou (porque não tenho tempo, ou porque não tenho dinheiro), no livro que eu compro, nos livros editados por amigos em uma pequena editora, na distribuidora de livros que entrega meu livro em casa, no candidato no qual eu voto, na empresa que o financiou, na água engarrafada que eu tomo, na água que falta na torneira, no travesseiro hipoalergênico sobre o qual descanso minha cabeça à noite…

Parece que hoje se torna difícil colocar em diagramas separados por um lado como são, como se expressam os fluxos vitais, e por outro como são, como se expressam os fluxos do capital e do estado. O estado se torna o instrumento regulador de uma “aplicação” contratuada com o sistema produtivo – a aplicação de um sistema de produção em nossas vidas, não da democracia, mas de instrumentos de controle. Essa confusão/questão pode ser exemplificada em como o agenciamento do desejo nos processos criativos na atualidade é re-significado pela forma de valoração da economia criativa, como novo agenciamento social produtivo da criação. O que diferencia a economia criativa da criação ela mesma???

 

Representação, apresentação e criação de mundo

Uma das principais posições que a cartografia pretende discutir é quem e como detém ferramentas de representação do mundo, pensando que é a vida que segue à frente, e as forças e os fluxos do capital que vem perseguindo a primeira. É importante ressaltar que quando dizemos representação estamos já em um regime específico. Será esse um regime que se alavanca na manutenção do poder? Podemos pensar naquele mapa do mundo clássico dos tempos da escola, e depois naquele outro, distorcido, que procura a representação “real” do território. Para a cartografia crítica não há neutralidade, e portanto representar ou apresentar um território dependem de uma certa ética da apresentação como criação de mundo, como operação cognitiva.

Qualquer mapa não é subjugação, contudo, ao mundo da representação. A representação ela mesma como ferramenta de produção de verdade torna-se  a p r e s e n t a ç ã o   na busca de representações do território-mundo que insurgem das lutas urbanas, das lutas rurais dos movimentos campesinos e das lutas dos territórios indígenas. A defesa da terra, expressa na representação/apresentação do território torna-se uma questão crucial na atualidade, visto que a  r e m a r c a ç ã o   de terra no caso indígena é a garantia da manutenção do direito de permanência na sua própria terra, lugar que conhecem com seus corpos e seus rituais, e que lhes é deveras constitutivo.

 

Clínica e trandisciplinaridade

Num dos caminhos para pensar a complexidade Eduardo Passos (9) aborda a relação entre complexidade, a transdisciplinariedade e a produção de subjtividade.  A produção de subjetividade é toda uma trama de conceitos proposta a partir de diversos campos do saber e também a partir do que se conhece por filosofia da diferença, tendo surgido da mistura entre formas de pensar que extravasam os estudos da psiquiatria e da psicologia, e que se contaminam de biologismos e de formas de afetar moleculares. Como conceito, pensa o sujeito como construção constante (não cumulativa), não rígida, mas como corpo-no-mundo. Como uma complexa rede constitutiva que sempre ultrapassa sua unidade individual. Por isso pensada a partir da noção de processo, porque forjado e ativo no arranjo de forças ((E de encontros e desencontros)) .  A complexidade da qual fala Passos é um aporte contemporâneo da ciência que é diferente da redutibilidade da ciência moderna, e portanto da compreensão mesma de sujeito. “A história natural da natureza desenha complexidades”, ele escreve. A transdisciplinaridade é, por sua vez, a proposta de pensar a ação de saberes variados, que nos força a atravessar planos desconhecidos.

Para abordar a complexidade Passos estabelece um pensamento que se produz no atravessamento de disciplinas e não no interior delas.  Trabalhando a partir do campo da psicologia social, Passos propõe uma ‘clínica transdisciplinar’, que  propõe discutir contra a noção de problema que sugere à busca de soluções, tomando a criação de problemas como um método da clínica. Associando  duas modalidades cognitivas  {ciência+inteligência} e {filosofia+intuição} o que pode surgir nesse modelo como clínica que pensa processo é, então, não a solução de problemas, mas a desmontagem deles e também a invenção de novos problemas. A clínica assim está ligada a uma capacidade de criação, que não é referente às sistematizações produzidas pela psicanálise, ainda que não se distancie dos seus estudos, mas procura inventar novos pontos de vista (e de vida…) (( Idéia de clínica do/no social, a clínica que transpassa os espaços privados, que atravessa no subjetivo e vai além, no individual, uma clínica que traduz a subjetividade da cultura, que está naquele indivíduo,  uma clínica compreende um sujeito inserido em uma relação micro e macropolítica, e que ativa o sujeito para a busca de seus devires, de seus processos enquanto sujeito desejante… Clínica que provoca desconforto, desconstrução…para uma reinvenção. Neste sentido não é uma clínica somente de respostas, que procura amenizar angústias ou desencontros, ela provoca com que este desencontro traga à luz/consciência os atos do sujeito enquanto processos de subjetivação, em que ele/ela não é vítima, é ator/atriz. ))

Isso me faz lembrar de um texto de Félix Guattari em que ele narra a sua relação com um paciente, em que ele sugere ao paciente que deixe de viver na casa dos pais para experimentar novas relações sociais, libertando-se das relações familiais que o aprisionavam… Guattari ressalta que essa sugestão e a coleta de dinheiro para que ele pudesse financiar alguns meses em sua nova casa escapavam muito dos limites éticos da relação psiquiatra–paciente. É um episódio singular…

A clínica transdisciplinar, à sua maneira, provoca novas complexificações, novos caminhos para as identidades, em seus processos de diferenciação e acoplamento, ou de composição social.  Desenha mapas invisíveis, mapas de invenção.

 

Singular / Comum

Volto para aquela minha pergunta formulada anteriormente: de que maneira a cartografia é provocadora de processos de singularização ao mesmo tempo em que provoca uma análise crítica de um sistema econômico e político que é necessário enfrentar? Me parece que essa pergunta pode ser pensada em uma dobra, ou em um encontro: na relação singularidade e comum, sendo a primeira a capacidade de criação de caminhos autônomos, e a segunda a capacidade desses caminhos de serem a construção de um comum, que extravasa a individualidade e endereça um espaço de produtividade maior, de uma ética comum. Ainda que pareça que a complexidade está centrada nos processos que envolvem a unidade de um sujeito, suas subjetivações, seus movimentos, seus pontos de vista, podemos pensar a cartografia de complexidade como uma ferramenta social. Ou será uma cartografia que se apropria de uma psiquiatria materialista – que se trata de uma dimensão de análise do desejo, de seus movimentos, considerando que eles são produzidos socialmente, e portanto não isoláveis no sujeito (retirando-o da dicotomia de sujeito ou culpado…), mas comuns,  ordinários…

Em uma perspectiva, podemos pensar que a capacidade de se mover no mundo vem pelo conhecimento do mundo, assim sendo, uma pessoa só se moveria por aqueles territórios que já conhece. Portanto, uma pessoa só se moveria pela capacidade de pertencer às significações já correntes (falar uma língua, por exemplo). Pois bem, mas ninguém fala uma língua sem inventá-la, ao menos um pouquinho.

Na perspectiva das singularidades e sua tensão com o comum, há uma relação intrínseca entre os a cognição, os processos coletivos das lutas, grupos e movimetos, seus vocabulários, a língua e a linguagem.

Os vocabulários, a língua e a linguagem podem ser instrumento reguladores dos processos de significação, mas na cartografia das complexidades provamos como elas também podem ser esgarçadas no processo de criação e na política. A língua e a linguagem são constituídas também por elementos extra-linguísticos e por elementos extra-cognitivos, ou seja, elas interagem com e também excedem os vocabulários. Na perspectiva da singularidade, operar a construção de uma cartografia de complexidade pode ser, portanto, inventar novos caminhos para si, como tenho argumentado ao longo desse texto.

As (des)medidas de mundo, entre o finito e infinito no singular-comum, parecem ser uma expressão das bordas não rígidas da língua e da linguagem. Inventamos nossas expressões, mudamos aquelas que não nos cabem, recuperamos termos de outros espaços. Na perspectiva da singularidade-comum, parece que não nos movemos apenas por territórios que conhecemos plenamente, nem apenas por territórios que conseguimos representar. Acredito que nos movemos por territórios que nos deixam deveras inseguros, (( Territórios estes que estão inseridos no nosso ser, que estão nas ferramentas do olhar e do ver, mas que são poucos utilizados, mas quando acionados entram em funcionamento. São territórios que fizeram parte da construção de nosso self, mas que foram deixados à revelia, pois nunca foram “solicitados”…, territórios de infinito conhecimento)) visto que sabemos que nosso traçado vai constituindo imprevistos, e dessa forma é provável que vamos produzindo peças inacabadas, protótipos, pistas, rascunhos, diagramas, o que eu chamaria agora de exercícios de singularização na complexidade do mundo.

Na perpectiva do comum, a cartografia da complexidade desejar ir provocando bifurcações, no sentido de provocar encontros, de provocar atrito às representações do mundo, e de provocar outros mundos. Na perspectiva do comum a produção de uma cartografia de complexidade é a construção de signos junto da construção de mundos, em que não estamos isolados ou imersos num caos (possivelmente imobilizador), mas em que nos “ordenamos” singularmente no caos ou tomamos parte em diversas complexidades. Nos movemos por ali, e por aqui, e por ali… Cartografia produzida a partir de vários pontos de vida diferentes. A construção do comum, contudo, não é um todo homogêneo, mas um todo diverso, repleto de singularidades.  O comum é a própria construção de alternativas, alternativas que se desenvolvem junto da vida, dos caminhos da vida, da ética das lutas, da construção de territórios e sentidos não fixados, pois multiplicam mais as linhas das cartografias dadas, e apagam, ao mesmo tempo, outras linhas. (sair)  

Evidente que algo complexo pode ser difícil. Evidente… A complexidade é expressão que me faz pensar nas equações de química que eu não conseguia resolver. Assim sendo, pensar a composição do mundo no plano de uma complexidade me faz assumir – claro – que é difícil é se mover no mundo! Mas que não há nada mais prazeiroso do que quando nos movemos junto de alguém… E, ao inventar caminhos, inventar indiomas.

 

Notas

(1) http://bureaudetudes.org/

(2) Cartografia crítica da Amazônia. Em: http://dossie.comumlab.org/
(3) Dois trabalhos são referência para essa espécie de metodologia que descrevo aqui, um o ‘Manual de Mapeo Colectivo”, 2013, do Iconoclasistas (disponível aqui  http://desarquivo.org/node/1679 ), e outro o livro ‘Pistas do Método da Cartografia’, 2009,  (disponível aqui http://desarquivo.org/node/1593).
(4) Mapping the Commons http://mappingthecommons.net/pt/mondo/
(5) Red LabsurLab https://labsurlab.org/
(6) Antena Mutante http://antenamutante.net/
(8) Proprietários do Brasil www.proprietariosdobrasil.org.br/

(9) Eduardo Passos. Complexidade, transdisciplinariedade e produção de subjetividade. Em: www.slab.uff.br/index.php/producao/8-textos/46-eduardopassostextos

 

Referências

Félix Guattari e Suely Rolnik (1986) Micropolítica – Cartografias Do Desejo,  Petrópolis: Vozes

Félix Guattari (1992) Caosmose: Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Ed. 34.

Franco Bifo Berardi. (2012) The uprising: on poetry and finance. Los Angeles/London: Semiotext(e)/MIT Press.

Tania Maria Fonseca Galli e Luiz Arthur Costa. Da Diversidade: Uma Definição do Conceito de Subjetividade. Em: Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology – 2008, Vol. 42, Num. 3 pp. 513-519

 

//

 

Cartografias da Ditadura

// Tiago Régis

 

Toda saudade é a presença 
da ausência de alguém 
de algum lugar
de algo enfim.

Gilberto Gil

 

A memória é uma ilha de edição, uma vez disse Waly Salomão. Com o auxílio deste maquinário, procede-se a uma edição não-linear, múltiplas operações: inserts, cortes, rearranjos, dentre outros mais.
Oportuno e bastante precioso o ensinamento do poeta, dado o contexto das “descomemorações” do cinquentenário do golpe de 1964. (1)  Levando em consideração, portanto, a memória como uma dimensão fundamental para a reconstrução da história de períodos autoritários, emerge em fins de 2013 na cena política fluminense um trabalho de mapeamento de lugares de memória relacionados tanto à resistência quanto à repressão no estado intitulado Cartografias da Ditadura. (2) Trata-se de uma proposta de construção coletiva e colaborativa, de caráter permanente e processual, de uma plataforma virtual aberta às contribuições de pesquisadores, ativistas, ex-presos políticos, bem como de qualquer pessoa que tenha interesse ou informações pertinentes à temática em pauta.
Ao entender as memórias como objeto de conflitos e lutas, nas quais os participantes envolvidos neste campo de disputas estão permanentemente elaborando novos sentidos, esta ação objetiva contribuir para um processo de memorialização no estado do Rio de Janeiro, evidenciando a luta dos movimentos sociais pela disputa concreta e simbólica dos espaços da cidade. A proposta é reapresentar a memória de maneira que seja reconhecida a necessidade de mudança no âmbito das políticas públicas, bem como colocar em pauta os diferentes motivos que temos para recordar.
*

Tendo em vista a produção cartográfica como uma ferramenta de estratégica importância para a disputa de territórios, a ação Cartografias da Ditadura tem por escopo fazer com que o mapa deixe de ser apenas um registro gráfico de representação para se transformar em um espaço de expressão de experiências coletivas, de encontros e trocas. O intuito aqui é sobrepor outras informações e grifar outros significados no mapa para assim possibilitar a produção de outras camadas de sentido. Interferir neste mapa é refazer uma outra cidade, a qual passa a não ter mais sua história escrita no mapa de contornos bem delineados.
Evidenciando cartograficamente as práticas da repressão ditatorial, bem como os atos de resistência àquele regime, esboça-se, aos poucos, o mapa de um Rio de Janeiro que desmancha a pálida imagética construída pelos discursos hegemônicos de poder. Trata-se de produzir outros sentidos acerca de lugares do passado ainda hoje muito presentes através do trabalho da memória, o qual se dá no imbricamento das biografias individuais e da história coletiva.
Reunindo os mais diversos materiais produzidos no campo temático Memória, Verdade e Justiça, esta cartografia pretende se constituir como uma ferramenta de valor pedagógico que objetiva fomentar a conexão entre as lutas e as violações do passado e do presente, bem como transmitir para as gerações de hoje e para as próximas o absurdo da violência institucional.
Considerando essa vertente coletiva de produção de conhecimento, Cartografias da Ditadura quer afirmar, como disse o crítico literário suíço Jean Starobinski em um texto concebido como discurso de agradecimento pelo Prêmio Europeu do Ensaio Charles Veillon de 1982, o “vivo interesse que sentimos diante de determinado objeto do passado, para confrontá-lo com nosso presente, no qual não estamos sozinhos, no qual não queremos ficar sozinhos.”. Afirmar, sobretudo, que as ausências deliberadamente soterradas e esquecidas da memória oficial se fazem mais do que nunca presentes!

Notas

(1) O golpe de 1964 mergulhou o país em uma ditadura de caráter civil, empresarial e militar que só terminou formalmente em 1985.

(2) Cartografias da Ditadura é uma ação do projeto de pesquisa e intervenção no campo temático Memória, Verdade e Justiça [Projeto MVJ] executado pelo ISER, organização de direitos humanos sediada na cidade do Rio de Janeiro. Em seu início [fins de 2013 e no início de 2014] foram realizados alguns encontros presenciais de interlocução com parceiros para formulação conceitual e tecnológica da plataforma. Em 26 de março de 2014 foi realizada uma mesa de debate que marcou o lançamento da plataforma. Desde então, a equipe responsável tem realizado algumas intervenções [parcerias com grupos/pessoas para produção de conteúdo + oficina em escola + concessão de entrevistas + participação em atividade da Campanha Ocupa DOPS >> ver mais sobre  a campanha aqui <http://ocupa-dops.blogspot.com.br/>] para difusão desta ação cartográfica. Para contatos com a equipe, escrever para
Referências
SALOMÃO, Waly. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
STAROBINSKI, Jean. É possível definir o ensaio? Tradução de André Telles. Revista Serrote, Rio
de Janeiro, n. 10, p. 43-61, mar. 2012.

 

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Conspiração

Escrito por vocabpol em 19122014 Categorias: conceito, contexto, entradas, índice

// por André Mesquita

Em grupo, ______________* arquitetam juntos as tramas secretas do mundo. Lançam murmúrios na rede. Desenham associações obscuras. Jogam com complôs e boatos. Teorias conspiratórias passam por regimes de elucubração coletiva, mistificações, sinais de paranóia, estados de cinismo. É possível revelar estruturas de poder autoritário, de controle ou de governança sem basear-se em especulações, falsos testemunhos e opiniões delirantes? Conspirações trabalham com incertezas, desvios e falhas de informação. Algo está sempre escondido. Tentam provar aquilo que não sabemos, ou aquilo que deveríamos saber. As provas se encaixam? Que pedaços de histórias podem juntas nos mostrar a verdade?

Instituições burocráticas e militares do Estado são responsáveis por manter, reservar e classificar como secretos conhecimentos “ameaçadores”. O “poder concentrado do segredo” é algo que Elias Canetti apontou como característico dos regimes ditatoriais. (1) Hoje, nos governos ditos “democráticos”, organismos normativos, agências de segurança e sistemas de vigilância usam informações confidenciais para controlar e dominar nações. Tudo o que uma teoria da conspiração quer é não explicar, mas produzir suspeitas para construir suas “verdades”. A ansiedade de querer conhecer o que não se sabe, de procurar enxergar o que está escondido nas sombras, ou até mesmo diante de nossos olhos, aponta para uma busca incessante pela transparência.

A ideia de transparência sobre um segredo que precisa ser trazido à público só evidencia o paradoxo de dizer que tudo está claro quando, na verdade, existe algo a ser resguardado. Somos tomados pela incerteza de não saber a verdade que se esconde por trás das cortinas, pois quanto mais se esconde, mais inegável torna-se a prova de que a informação é administrada e regulada. Evocar a “presença da ausência”, como fizeram as madres da Praça de Maio para comprovar as torturas e os desaparecimentos durante a última ditadura militar na Argentina, ou a recente pergunta “onde está o Amarildo?”, nos convocam publicamente a pensar que nem sempre a verdade que se encoberta pode ser enterrada por intimidações e sintomas de amnésia.

Teorias conspiratórias nunca são transparentes e lógicas. Para seus perpetradores, sempre existirá algo a mais no mundo que precisa ser provado. A desconfiança cresce. A intriga torna-se ilimitada. Expor um segredo não nos mostra a presença de um mundo “clandestino” ou um poder “paralelo” agindo em concomitância com o real. Ao invés disso, tal exposição enfatiza que esse mundo e esse poder atuam dentro de um espaço de disputa onde as nossas relações sociais cotidianas são construídas. O que mais falta à conspiração são pistas de suas teses e um sentido claro de suas ligações. Como provar associações sem cair nas falácias e armações da grande imprensa, ou nos memes disparados nas redes sociais? Criminalizar movimentos pode passar pelo viés conspiratório da acusação sem provas concretas.

É da natureza conspiratória falsear ou limitar informações. A internet é um grande repositório de teorias conspiratórias exóticas e fantasiosas, com páginas cheias de detalhes sobre o governo totalitário dos illuminati, sobre a presença de extraterrestres entre nós, sobre os segredos da morte de líderes políticos e religiosos, ou sobre o perigo de um controle mundial pelos fundamentalistas religiosos e grupos extremistas. Fatos, profecias e evidências confusas querem provar a verdade que não sabemos. Na rede, tudo parece estar sendo revelado, dando-nos a falsa sensação de que agora sabemos o que antes não conhecíamos. No entanto, o aumento da quantidade de informação circulando na web não significa maior clareza de entendimento.

No início dos anos 1980, Fredric Jameson (2) já havia apontado em sua crítica ao pós-modernismo a urgência de se produzir uma “estética de mapeamento cognitivo” como algo que nos ajudasse a cartografar os processos de integração global. Jameson também se referiu à necessidade de produzir uma arte política que conseguisse representar o espaço transnacional do capitalismo para que pudéssemos entender os nossos posicionamentos individuais, ajudando-nos a recuperar a capacidade de agir e lutar, então neutralizada pela nossa confusão espacial e social. Quase trinta anos depois, uma pergunta ainda deve ser feita: podemos articular a totalidade de um sistema social sem cair em uma análise conspiratória? Para Jameson, a conspiração tenta representar algo que não pode ser representável por meio de uma analogia do mundo real, simplificando estruturas de poder e distorcendo sistemas sociais. O fato de hoje tudo nos parecer conectado não significa que conseguimos desvendar a rede completa de uma trama.

 

* Inclua nesse espaço nomes de corporações ou organizações em conluio com atores influentes formando alianças ocultas e sigilosas.
Notas

(1) CANETTI, Elias. Massa e Poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

(2) Jameson, Fredric. The geopolitical aesthetic: cinema and space in the world system. Bloomington/Londres: Indiana University Press and BFI, 1992.

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Davi Marcos / Post

Escrito por vocabpol em 18122014 Categorias: atelier, criação, poesia, polícia

Pequeno ajuntamento de postagens/pensamentos sobre um pedaço de realidade**

// Davi Marcos

 
Aumentou tudo no Rio, principalmente o nível do caos, seria por acaso?

*
No jornal diz que será um soldado do exército para cada 55 moradores da Maré, mas não diz quantos médicos, quantos educadores, quantos dias de coleta de lixo, quantas novas vagas de emprego…a lei do fuzil do Estado não difere muito da lei do fuzil do bandido.

*

Eus…

A vida é dura, não se pode esmorecer…

A chapa é quente, não pode dar mole…

Aquilo que não aprendemos nos engole…

*

Estalando

Toda hora tem, gritou o “menó”

Vai vem frenético, se liga, aqui ó

Fogos, estalando, um chicote novo, eminência fatal para o povo

Chapa quente, gato preto, corre pro beco

Rápido, languido, quando corre quase não toca o chão

Parece vapor, tem carga nova, difícil botar a mão

Alma ainda correndo, após o estampido, ecoa o sangue no ouvido

Dizem que tava no veneno, era ainda menino, pouco mais de 12

Talvez o artigo, também o calibre que o acertou, em sua última pose

Na linha do jornal era um gerente, mais um, menos um, pra muita gente

Na favela onde morava, um menino da boca e na realidade uma criança

Que depositara seu sonho, sua esperança, com toda confiança

“Lado certo da vida errada” era assim que via, que vivia, essa era a parada, dia a dia

Na sua curta estrada que a falta fia

A fila anda…pra boca e a barriga “não ficar vazia”

Estalando de novo, estalando, de novo…estalando!!!
*
Um pouco da pressão do lado de cá

No caminho, vi muitas pessoas aderindo ao “vamos vencer na vida de qualquer jeito” muitos viraram ladrões, traficantes, estelionatários e tantos outros viraram policiais. Um dia no RocK in Rio em 2001, fui abordado por dois policiais na beira da rua, onde tinha um matagal que as pessoas estavam usando como banheiro, quando me perguntaram o que estava fazendo ali,  respondi enquanto subia o fecho-ecler da calça, que estava criando uma alternativa para a falta de banheiros públicos, um deles, o mais velho, me chamou de engraçadinho, o outro, bem mais jovem, veio me revistar, ele gaguejava ao falar comigo. Olhei por baixo das sombras do boné da PM e reconheci o policial que me revistava, no impulso o chamei pelo apelido que sempre o usava na rua de Olaria: Gaguinho?
Levei um tapão na cara, aos berros de “tá maluco, seu filho da puta?”
O policial mais velho já mandava me esculachar, daí segurei meus cabelos, que eram grandes na época, fiz um rabo de cavalo, assim o policial mais novo pode ver melhor o meu rosto, ao me reconhecer me abraçou, chorou e pediu desculpas, ao final ainda chorando ele disse que a pressão que sofriam era muito grande. O policial mais velho, com cara de decepcionado disse para parar com aquela cena e que só faltava nos dois nos beijarmos, o Leandro me colocou para dentro do show e vi os últimos minutos do Red Hot Chili Pepers, nunca mais o vi, agora vejo em jornais, matou a namorada.
*
O maior espetáculo da TERRA

No proscênio, tem um gênio

E seus desejos realizados

Transformam todos em errados

Muitos são enterrados

Silvos, uns mortos e outros vivos

As vias de fato
Assim como gato e rato

Minha alma/poesia dói

Fico num só desconstrói

Quem dera fosse herói

Os meios para os fins

São tipo assim
Balas, gases, bombas

Menos marfins e mais trombas

Não d’água, mágoa

São valas aos infernos abertos

É sangue de Marias, Josés, DGs e Adalbertos

É bonde e não gangue

Nosso espetáculo de sociedade

Só não é mais absurdo que nossa realidade

Se foi por acidente, não sabemos

Mas o preço de qualquer coisa pagaremos

Com a moeda dos lamentos, desde de 22 de Abril de 1500

Invasão maior ainda não se viu

Mandaram os putos pra puta que pariu, olha o que disso tudo surgiu

 

*
Retrovisor

Por ventura sejas agraciado

Por aguardada mudança de lado

Não te esqueças da origem

Que sujou teu rosto de fuligem

Pois as maquiagens não poderão ocultar

O que pra sempre dentro d’alma estará

Raiz que em momento crítico te afetará

Que em luzes diversas não se apagará

Pois sem tais bases de ser

Jamais seguiria um simples entender

Efêmero, és  
Sorte ou revés

Eterna é a mudança

Em tempo, ser sempre criança

No vento, esperança dança

A vida não permite fiança
*

Não dou conta da realidade, reinvento cada ponto que puder…

 

*

Bom dia favela

 

Quando se entra na favela, de verdade, ela nunca mais sai de dentro do ser, a favela fica e de alguma forma se manifestará n’alma. Favela não é um espaço, é uma vibração.

 

*

Pobre, porrada

Rico, empreitada
Copa furada
De tudo ou nada
Tudo pra quem?
Retira de alguém/ninguém
Suas naves vem
Pára tudo, torcida, amém

Esmo além do real
A esmo, nós, foi mal
Soldados contra nós
É nós
Somos nós
Contra nós
Vítimas e algoz
Em nome deles, por eles

Com nosso dinheiro
Nosso suor
Nosso sangue
E tudo ao redor
Nada mais nos pertence
Força de trabalho, corpo ou a vida que se vende
Ninguém (se) entende?

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Davi Marcos. Fotografia da bomba de gás usada pela PM em frente ao Observatório de Favelas.

*

Temos mais em comum do que se pode aceitar

Sabe aquele policial que está ali?

Hã…?

Também é pobre.
Quem dá ordem para a polícia cumprir?
Violência é uma questão de classe.

A multidão que lincha o fugitivo, é pobre.

O moleque que furta o cordão de forma violenta, é pobre

O ladrão que usa uma faca, é pobre

O assaltante que segura a pistola, é pobre

O bandido que segura o fuzil, é pobre

O policial que segura o fuzil, é pobre

O soldado do exército que segura o fuzil, é pobre

O segurança privado que segura o 38, é pobre

O guarda municipal que segura a arma de choque e o porrete, é pobre

A multidão que reage de forma violenta, é pobre

Quem lucra com a violência?

A quem o pobre serve através da violência?

Devemos ser violentos?

AMOR É ARMA

 

*
O vulto ou a volta

O vulto volta

A volta vulto

O vulto deu a volta

A volta deu o vulto

Vulto e volta

Volta e vulto

Vulta
 Volto  
Voluta

O vulto ou a volta?

O vulto é a volta

A volta é o vulto

Volta 
Vulto 
Volta 
Vulto 
Volta…

 

*
Transgrido quando incomodo o conservador, mas vou além quando faço o mesmo com a vanguarda.

*
Família relatou sobre adolescente levado pelo exército na Nova Holanda agora, as mulheres estavam com os rostos e olhos vermelhos, disseram que era por causa do gás de pimenta.
—-Os soldados do exército que estão na Maré, são tão novos quanto os moleques do tráfico e tem o mesmo perfil, em maioria negros e de classe popular.
—-Sobre uma matéria do jornal O Dia:
A mídia descobriu uma nova comunidade na Maré, estava lá há 30 anos e nessa levada ressalto essa frase, que pra mim é exemplo do que faz o bolsa família :

”Desempregada desde que descobriu que estava com Aids, há oito anos, Ana sustenta os filhos com apenas R$ 290 que recebe do Bolsa Família. As crianças, de 17, 8 e 5 anos, estão matriculadas na escola. Todos dormem em um único colchão, achado na rua.”

Matéria  Jornal O Dia
*
CA MINHA

MINHA ARTE

MARTE MINHA

LE VINHA

CAL MINHA

AD VENTO

DE TALHOS

NOS MALHOS

DA CALMA

AD QUERIDA

ARTE MINHA

MINHA VIDA
*

HoloSortes

Circo e cerco, armados

Senhoras e senhores, acuados

Desejando a paz, o fim da guerra

Vivendo o clima de invasão da terra

São homens e não alienígenas

Brancos, negros e indígenas

Fluxo de vídeo em tempo real?

Reality Show, sensacional…

Aqui larga o aço, é pão escaço

Nesse circo, é nós o palhaço

*

** Seleção de escritas de Davi no seu perfil facebook entre 2013 e 2014

 

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Diagrama

Escrito por vocabpol em 16122014 Categorias: diagrama, expressão, política, transformação

// Tatiana Roque

“O diagrama é este formigamento de gestos virtuais  : apontar, fechar, prolongar, estriar o contínuo. Uma simples linha, um pedaço de flecha e o diagrama salta por cima das figuras e constrange a criar novos indivíduos. O diagrama ignora de modo soberbo todas as velhas oposições abstrato-concreto, local-global, real-possível. Ele guarda como reserva a plenitude e todos os segredos dos fundos e dos horizontes”.

Gilles Châtelet, Les Enjeux du Mobile

 

Como inventar uma política autônoma, novas formas de organização, práticas capazes de manter uma assimetria, como condição para uma política anti-capitalista?
Uma máquina expressiva, criação de signos que resistam à divisão entre significante e significado, entre expressão e conteúdo. Uma gramática, mas também uma semântica corporal das lutas.
Cada enunciado se relaciona a uma situação micropolítica específica, que não conhecemos sem mergulhar na situação na qual o enunciado se produz.  A escolha das palavras não é anódina, nem seu significado. A diagramática é uma recusa de rebater a enunciação sobre os enunciados, em um mundo povoado de palavras de ordem.

E opor à axiomática do capital é escapar de seus mecanismos de articulação, de mediação, de tradução de códigos. Sempre houve códigos, mas agora é preciso que todos se equivalham.
As minorias também são codificadas, apropriadas por identidades fixas, e podem se tornar reféns dos mecanismos de captura. Para Deleuze, há duas maneiras pelas quais o capitalismo codifica as formações sociais, e que são interiorizadas pelas minorias: o corte nacional/extranacional, que torna toda minoria composta de estrangeiros, ainda que estrangeiros de dentro; o corte individual/coletivo. A minoria se constitui na impossibilidade de interiorizar essa última divisão, pois tudo que parece emergir do individual (familiar, conjugal, psíquico) se liga a outras questões nada individuais (étnicas, raciais, sexuais, estéticas), com uma relevância que é imediatamente coletiva e social.

Uma das maneiras pelas quais o capitalismo codifica as formações sociais, para integrá-las em sua própria dinâmica, é a da comunitarização, ou seja, o isolamento produzido pela fixação de uma identidade. O que leva alguns grupos a enxergarem suas reivindicações como parte da esfera interna, como problemas que só concernem àquela comunidade, o que estamos chamando de problemas nacionais. Pode-se até tolerar a dimensão coletiva e política das questões que preocupam uma minoria, contanto que ele não se conecte a outras minorias, a coordenadas internacionais, transversais, ou seja a lutas estrangeiras.

Por isso, não dá pra combater o cinismo capitalista entrando no gueto, falando uma língua particular. Por outro lado, também não mobilizamos nenhuma força subjetiva renunciando à singularidade de cada grupo social. É sim, usando muito do gueto, de sua sensibilidade e seu dialetos próprios, mas para conectá-los, conjugá-los a outras lutas. Assim, podemos inventar um devir autônomo imprevisível, que passa por conexões transversais entre atores diferentes, lutas transnacionais. Talvez possamos falar de uma nova internacional.
Os momentos de maior potência dos movimentos são aqueles em que diferentes lutas se encontraram, produzindo mobilizações imprevisíveis.

Precisamos urgente de novos parâmetros para avaliar, de modo imanente, a efetividade das lutas e das organizações desse ponto de vista. Que se liga aos modos de existência que elas propõem, seu estilo, os problemas que coloca, as reivindicações que traz e seu potencial de conexão. O critério dessa avaliação é a aptidão que a gente tem para se articular com outras lutas, conectar nossos problemas com os problemas de outros, ainda que muito distintos do ponto de vista das identidades. Falar outra língua. Nunca só a nossa.
Tal é a função de uma política diagramática: operar por relações transversais entre problemas distintos e se opor à automação dos axiomas capitalistas.

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Escuta

Escrito por vocabpol em 14122014 Categorias: ação, entradas, índice, metodologia

// por André Mesquita

Em Rhythmanalysis (1992), Henri Lefebvre situa a figura do “ritmanalista” como alguém atento não apenas à informação, mas dedicado a ouvir o mundo com todos os seus ruídos, as coisas sem significado, os vazios e os silêncios. Primeiro, o ritmanalista mergulha na escuta interna de seu corpo (a respiração, o coração, os músculos e os membros). Depois, percebe os ritmos externos – odores também marcam ritmos. O corpo do ritmanalista, diz Lefebvre, é um metrônomo.

O ritmanalista solicita todos os seus sentidos. Ele baseia sua respiração, a circulação de seu sangue, as batidas de seu coração e a pronúncia de seu discurso como pontos de referência. Sem privilegiar qualquer uma dessas sensações, criadas por ele na percepção dos ritmos em detrimento de outros. Ele pensa com seu corpo, não de forma abstrata, mas na temporalidade vivida. (1)

O ritmanalista não se coloca em posição superior, ou como produtor de uma disciplina especializada. Ao contrário, todas as pessoas produzem seus próprios ritmos integrando o interior e o exterior, chegando ao concreto por meio da experiência. O corpo que dança, o corpo que se movimenta pela rua, o corpo que luta, o corpo que colide com outro corpo. Todos esses corpos criam ritmos, são focos de experiência e de sons: a escuta e a execução de diferentes partituras.

As pessoas deveriam ouvir mais as outras pessoas. Artistas deveriam escutar mais. Artistas falam em “diálogo com um público mais amplo”, mas até que ponto suas respostas já não estão prontas? Artistas falam em colaborar com a comunidade, mas quantas vezes a voz do outro é diminuída ou não considerada? Projetos colaborativos propõem-se a trocar ideias e experiências, a produzir discursos através das diferenças. Um espaço de convívio mútuo não garante um lugar democrático onde os conflitos são apagados – como propõe o modismo de um conceito como “estética relacional”, atrelado ao confinamento do mundo da arte e da cultura empresarial em atividades com a inclusão do “outro social”. Esse tipo de prática domestica situações de encontro para encenar “micro-utopias” falsamente democráticas e exploradas no espaço protegido das instituições. Quando a própria voz da colaboração com a comunidade não é ouvida ou abafada, o “outro” transforma-se em “coadjuvante” e o artista/coletivo passa a valorizar apenas a sua própria agenda de interesses, êxitos e méritos. Sem aumentar a sua capacidade de escuta coletiva, o artista pode assumir um papel paternalista de falar em nome do outro considerado “desprivilegiado”. Ou realizar uma forma de “turismo”, para o qual uma comunidade serve como um lugar que precisa ser “melhorado” por suas ações – o artista/coletivo age como um Robin Hood às avessas. Escutar requer um momento crítico de abertura, de não-ação como aprendizado, produzindo consensos mas também dissonâncias. (2) Ouvidos em tensão. O processo é a soma de diferentes ritmos e pulsações.

Notas

1. LEFEBVRE, Henri. Rhythmanalysis: Space, Time and Everyday Life. New York: Continuum, 2004. p. 21.

2. Ultra-red. Five Protocols for Organized Listening, 2012. Disponível em: <http://www.ultrared.org/uploads/2012-Five_Protocols.pdf>.

 

 

//  (((caos-complexidade-escuta))) *

V1: Queria trazer um pouco pra nós aqui as noções de caos e complexidade. O que é um possível caos das coisas, e o que é uma complexidade que a gente possa construir. Pensando que há uma relação entre caos e complexidade, podemos propor uma complexidade temporal, fragmentária, que funciona como uma imagem protótipa, que abre o contexto de uma situação com a qual queremos lidar, por exemplo. Não quero totalizar a definição da complexidade como sendo complexa por si e impossível de criar uma entrada. Quando eu falo complexidade eu quero me endereçar a uma coisa mais possivelmente material, real, que é no nosso caso aqui um assunto comum, o terreno comum das manifestações no Brasil que se intensificam a partir de Maio/Junho de 2013. A ideia de complexidade poderia servir de um modo se a gente quisesse dar conta da maior quantidade de assuntos e temas e expressões que surgem no contexto das manifestações, é óbvio que a gente não vai (conseguir) fazer isso, a gente não aqui nesse pouco tempo/espaço. Proponho que a gente pense aqui a questão da complexidade como sendo assim um arranjo, um arranjo temporal em que algumas coisas se articulam e que a gente pode visualizar o que é que tá acontecendo a partir de pontos de vista diferentes em um mesmo contexto. Uma maneira de operar que não pretende totalizar o assunto, mas por meio da qual  conseguimos visualizar alguns pontos que identificamos como básicos, e seus contrapontos. Assim podemos, num primeiro momento, trazer alguns pontos que nos parecem importantes abordar no aspecto das manifestações no Brasil como um momento importante de produção estético-política; e num segundo momento partir para uma conversa que coloca em tensão os pontos que foram trazidos, relacionando assuntos, sujeitos, relatos, perspectivas.

Para produzir via construção de uma complexidade a partir de um coletivo temporal, contingente, eu vejo o exercício de trabalho coletivo como sendo um exercício de escuta. A escuta pode ser pensada como uma ferramenta que qualifica os intercâmbios, nos processos coletivos, sociais, comunicativos e etc. Há vários modos de pensar e praticar a escuta, e todos dependem claro da capacidade auditiva e da atenção relacionadas. Um deles que pode ser interessante de trazer aqui é a noção de escuta como sendo uma escuta atenta que permite que …eu… por alguns segundos, …eu… meio que esqueça um pouco das minhas certezas e me deixe permear um pouco por aquilo que está sendo trazido pela outra pessoa. Então a escuta seria em uma instância o exercício de um escuta não preconceituosa, seria uma escuta desmontada de pré-concepções, que aceita o que vem sendo dito, e que claro, mientras tanto analisa, …não que eu vá abraçar imediatamente o que o outro está me dizendo, claro, mas pelo menos eu esteja num estado de latência um pouquinho mais aberto que me deixa ouvir mais do que eu pudesse estar ouvindo.

V2: Mas é possível isso?

V1: É isso que estou dizendo, não quer dizer agente vá se incorporar ao modo de vida do outro, é só escuta. No sentido de que o ouvido tá aberto e de que há uma escuta, uma escuta da diferença. Repensar a escuta pode servir para quebrar a ideia da escuta como algo natural, algo que acontece mesmo que eu não queira, a ideia de que “meu ouvido tá sempre aberto”. Pode servir para incorporar a observação da operação cognitiva da escuta, pensar o processo da análise ou da atenção que vem junto com a escuta. Porque a gente tem filtros, que estão sempre operando quando a gente tá escutando tudo ao redor. E esses filtros são nossa garantia ética também, claro, que provocam distinções naquilo que estamos ouvindo.  Acredito que nossa escuta fica ainda mais “armada” quando a gente está numa situação pública, coletiva, sei lá, numa palestra por exemplo, numa conversa de um determinado assunto, em uma reunião de movimentos com modos de operar e referências diferentes. A gente até usa o termo “policiando” (!!) para pensar em como estamos “policiando discursos”, para descrever essa condição da atenção!

V3: Se antecipando…

V1: Antecipando… o discurso do outro. Que pode ser em vários sentidos, né?

V2: Mas ao mesmo tempo também você está ali com algumas lacunas abertas que você quer preencher. Então eu acho que até quando você descobre um termo, as vezes é porque você tem questões ao redor dele. Imagina, você tá precisando acessar melhor alguma questão mas você não tem um termo, daí você ouve “gentrificação”, ufa!, entrou né! Tipo, preencheu aquilo que você andava ao redor. E você já começa a usar. Vejo que é muito isso assim. E ao mesmo tempo você também rejeita, no sentido de que você pode rejeitar um vocabulário que já é, já não expande mais nada. Tipo tem discursos que já não movem mais coisa alguma e as pessoas persistem nele porque meio que elas se sustentam assim.

V1: É que a subjetividade se constrói muito pelos discursos, né. “Eu sou assim, eu penso assim. Eu me movo assim no mundo…”

V4: Não necessariamente da mesma forma o tempo inteiro…

V1: Não, não. Claro… às vezes a gente percebe uma mudança de posição, e isso é bem interessante. É até uma escuta de si, será?

Com essa coisa da escuta, de escuta da diferença tem mais dois pontos. Um que eu tava trazendo pra gente pensar era essa noção de pontos de vista diferentes. Que na nossa oficina seria a gente pelo menos passear por isso, passear pelas nossas conversas, percebendo o que é que a gente pode aprender. Então antes de pensar em incorporar o discurso do outro, há algo na sua fala e na sua experiência que pode nos ensinar algo, será?… Se bem que aqui a gente tá num processo super curtinho assim, são dois dias de oficina, né. Na oficina da semana passada, que foi de uma semana, foram acontecendo várias coisas interessantes que mostravam que a gente tava um pouco mais permeável um ao outro. e que havia possibilidade de estar pensando algumas possibilidades assim. E nem tanto de um-pra-um, tipo “eu aprendi aquilo com ele/ela pra mim”, mas de criação juntos… Então outro aspecto da escuta, que tem a ver com essa escuta que vai além da escuta como coisa natural e dada, e que podemos seguir conversando é a escuta de elementos não discursivos, que estão além da literalidade do que vem sendo dito. E essa é mais complicada por que ela depende de um misto de atenção e análise mas de colaboração, criação, e ainda… não de julgamento do outro.
* Transcrição de conversa da Oficina na Aldeia Gentil, Abril/2014

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Estratégia

Escrito por vocabpol em 13122014 Categorias: cartografia, contexto, entradas, índice

// por Julia Ruiz

Eficácia e acúmulo, mas não só. Pensamento, inteligências de luta, conhecimento a cavalo entre o futuro e o presente, entre o desejo e mundo: medir distâncias, calcular possibilidades, prioridades e objetivos. Sacar – a duras penas – das múltiplas tensões da vida, o metal precioso dos objetivos e prioridades.

A palavra estratégia é difundida em seus usos militares pela obra de Karl von Clausewitz (1780-1831), que Lenin gostava de citar. De fato, é depois da Revolução Russa que o conceito militar de estratégia começa a figurar em manuais programas políticos como uma categoria específica, que diz respeito à luta revolucionária pela tomada do poder. Na segunda metade do século XX, embora ganhe tom subversivo nos contextos das lutas sociais na América Latina, a estratégia parece se desgastar, como faca que perde o corte, na medida em que seu uso prolifera nos mais diferentes campos da organização social e da ação coletiva – dos partidos e sindicatos às ONGs; principalmente em sua apropriação pelo mundo empresarial e pelo marketing publicitário.

Em busca de outras novas formas de fazer política, chegamos a detestá-la: a estratégia torna-se sinônimo de um ponto de vista único, da centralização, do direcionismo, do “de cima para baixo”, do silenciamento de todo o resto. Pelas repetidas vezes em que vimos nossas melhores intenções apropriadas pelas máquinas infernais do autoritarismo e da mercantilização, preferimos muitas vezes esquecê-la, evitá-la. Depositamos nossas esperanças na proliferação espontânea das diferenças em vez de nos metermos (de novo?) a arquitetar hierarquias. Deixamos para depois, ou para outrem, a indelicada tarefa de traçar rotas – acreditamos assim evitar o perigo das lâminas afiadas.

Mas a estratégia está sempre lá. O cálculo, o corte, a manipulação das relações de força estão em operação onde quer que haja um sujeito de querer e de poder. Antes de estar referida a algum objetivo, a estratégia é o gesto que postula um lugar “próprio”: esse “nós” ou esse “aqui” separado do resto do mundo. É a definição desse “próprio”, ainda que transitória, que possibilita a ideia de manipular relações com aliados, alvos e ameaças “externos”: amigos, inimigos, concorrentes e colaboradores ocasionais, públicos, objetos e objetivos.

A estratégia nesse sentido está presente em todo processo criativo: não é apenas uma relação entre a ação e um objetivo a ser conquistado, mas um gesto pelo qual efeitos de totalidade são produzidos na experiência individual e coletiva. A possibilidade de que um conjunto de eventos, ou mesmo uma intenção colaborativa entre diferentes sujeitos, possa ganhar um nome próprio é impensável sem este gesto que circunscreve um espaço político. Mesmo riscada do dicionário, a estratégia segue operando em qualquer coisa, processo, coletivo etc – que esteja se constituindo como lugar de onde projetar visões, mensagens, análises, imagens, propostas, campanhas, acusações, conspirações, inspirações etc.

Frequentemente, com um pé atrás diante de tudo que pretende organizar o mundo a partir de um lugar de querer e poder, preferimos imaginar a nós mesmos como dotados de uma criatividade sempre móvel, como nômades, como seres intersticiais. É um problema que a estratégia – como vocábulo político – caia em desuso entre “nós”. Por que precisamos deste “nós”, “nosso” problema é esse. Mesmo quando se trata de “espaços abertos” e “processos horizontais”, que querem ser diferentes dos modelos frustrantes da organização política moderna, uma proposição política coletiva é sempre enunciada como um lugar de saber, querer e poder, como um lugar de onde se espera manipular relações de força.

A horizontalidade e a abertura concebidas como modelos de organização, em que estaria abolida a manipulação de relações de poder, podem também favorecer o ocultamento da separação entre aqueles que formulam e traçam as rotas e aqueles que as seguem. É preciso lembrar que o capitalismo neo-liberal ou pós-moderno é ele mesmo construído sobre redes não hierárquicas e opera dentro dessa lógica. Mas um “espaço horizontal”, em seu sentido político, pode ser também um jeito de descrever uma experiência de renovação de laços, em que a intensa contaminação se confunde com a “esperança de um mundo diferente”; um momento experimentado como uma espécie de ‘grau zero’ da política, em que todo mundo se encontra em um mesmo nível de ação.

A esperança, expectativa, euforia, o sentimento de confiança e mesmo de frustração vividos e compartilhados nesses momentos cumprem um papel crucial na produção dos “nossos” lugares comuns. Essas sensações e conflitos nos lembram que todas as relações, inclusive as ditas “horizontais”, não são dadas ou mágicas, mas sempre construídas. Lembram o quanto de nós precisamos investir para criar um espaço político aberto, porque um espaço aberto precisa ser aberto por alguém – exige as dores e delícias de um querer e de um gesto de poder.

A estratégia tem a ver precisamente com o envolvimento no trabalho prático de cortes, separações e reduções implicadas na produção do espaço comum: mesmo a menor das decisões, como sabemos, é no final uma decisão política. O grau zero da política não está na recusa das escolhas estratégicas, mas na experiência comunal de imersão nessas escolhas, nesses exercícios de engajamento pleno, corporal e afetivo com o poder, com as tomadas de decisão e suas consequências, onde se originam nossas maiores frustrações, mas também o prazer e a esperança que tornam as experiências políticas inesquecíveis e irreversíveis.

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Evento

Escrito por vocabpol em 12122014 Categorias: entradas

// por Rodrigo Nunes

Evento é um conceito-chave da filosofia contemporânea que atravessa, diretamente com este nome ou operativo sob outras formas, a obra de pensadores tão distintos quanto Heidegger, Whitehead, Bachelard, Althusser, Foucault, Deleuze, Simondon, Derrida, Badiou e Rancière – mas que poderíamos fazer remontar ainda mais longe, ao occursus (encontro) de Spinoza, à occasione (ocasião) de Maquiavel ou à plaga e ictus (colisão) de Lucrécio. Sua importância e ubiquidade provém da quantidade de funções que é chamado a cumprir: dar conta da emergência do novo e de sua possibilidade; instituir uma ruptura com a causalidade, a temporalidade e a historicidade lineares; fazer a novidade passar nem do lado do sujeito, nem do lado do objeto, mas ao mesmo tempo entre os dois, constituindo-os; com isso, promover a temporalização do transcendental, que deixa de ser uma estrutura estática para se tornar transformável (e, paradoxalmente, transformável desde o empírico); assegurar o primado da prática sobre o pensamento e a teoria, da formação sobre a forma, da individuação sobre o indivíduo, da contingência sobre a necessidade, num registro, contudo, de impessoalidade: o evento (nos) acontece mais que nós o fazemos acontecer.

Jacques Derrida propôs uma distinção entre “futuro” e “por-vir”: enquanto o primeiro é aquilo que podemos, desde o presente, projetar como esperado ou previsível, o segundo se refere ao inesperado, ao imprevisível, aquilo que chega inopinadamente, que nada nos fazia aguardar ou antever. Num certo sentido, o verdadeiro evento é aquele que cria seus próprios antecedentes. É apenas retrospectivamente, à luz de sua eclosão, que se pode descobrir os sinais que anunciavam sua possibilidade, os materiais dos quais ele seria feito. Mas essa possibilidade só aparece a posteriori, porque o evento, justamente, é uma ruptura, um excesso por sobre a linearidade, por sobre o mecanicismo. Ele nos pega de surpresa, ainda que não venha do nada.

Eventos têm uma estrutura complexa. O mesmo evento acontece em diferentes níveis e, de certa maneira, mais de uma vez; é simultaneamente uma descontinuidade concentrada num ponto e um processo que se desenrola no tempo, um “eventar” contínuo. Para cada evento, haverá várias camadas de causalidade distintas, em escalas temporais diferentes, com maior ou menor extensão e alcance (um conjunto de problemas estruturais de longa data, uma série de frustrações coletivas, um histórico recente de humilhações pessoais…). Mas aqueles que estão sujeitos a estas causas ainda estão, num primeiro momento, operando dentro de um espaço pré-estabelecido de possibilidades que restringe o que é imaginável, as ações que se pode pensar tomar. Algo ferve sob a superfície, mas não encontra escape. De súbito, porém, uma pequena mudança, uma causa nova e talvez aparentemente irrelevante, pode condensar as diferentes camadas causais num só ponto; a partir daí, um limiar virtual foi cruzado. A situação se enche de novos potenciais, há uma mudança de sensibilidade: o estado atual de coisas tornou-se intolerável. De certa maneira, o evento já aconteceu: o que era impensável perde a estranheza, o inimaginável passa a ser concebível, o impossível agora é possível.

Este é o evento como “puro devir”, uma transformação virtual abstraída ou subtraída de estados de coisas atuais. Mas o evento não é apenas puro devir, ele também é um devir alguma outra coisa. À “mutação virtual” do puro devir se segue uma “mutação atualizante”, por meio da qual o deslocamento da sensibilidade vai ganhando forma, vai tomando corpo: novas palavras, atos, condutas, a inscrição atual e perceptível de transformações virtuais e sensíveis. Por meio desta atualização, o evento se comunica, se propaga, agindo sobre o mundo a seu redor de forma a alterá-lo. Pode ser que apenas algumas pessoas tivessem inicialmente cruzado aquele limiar; mas uma vez que esta transformação as tenha tornado alguma outra coisa, a potência transformadora poderá ser comunicada e compartilhada. É assim que o evento, que já acontecera uma primeira vez numa mutação virtual, e uma segunda vez em novas individuações, pode acontecer muito mais vezes à medida em que se propaga.

O evento é o momento em que se registra, de maneira inequívoca, que uma transformação dos corpos, das sensibilidades, das palavras e dos desejos ocorreu. É também por isso que ele gera, naqueles que afeta, um sentimento de transformação irreversível – de que o tempo se divide em um “antes” e um “depois”. Não que tudo mudou, mas que uma coisa mudou, jogando luz nova sobre tudo mais e criando possibilidades antes inexistentes. Dessa forma, o evento gera uma divisão, mais ou menos consciente entre aqueles que estão em sua vizinhança, entre um “nós” e um “eles”: aqueles para quem algo de incontornável se produziu, e aqueles que acreditam que nada mudou, que negam que algo tenha mudado, ou que admitem a mudança, mas buscam confundir ou reprimir o seu significado.

No dia 6 de junho de 2013 o Movimento Passe Livre bloqueou a Av. 23 de Maio com uma barricada de catracas de papel pegando fogo. Ao fundo, do alto do Viaduto do Chá ao Vale do Anhangabaú, o movimento posicionou uma enorme bandeira com a frase “SE A TARIFA NÃO BAIXAR SÃO PAULO VAI PARAR”. À direita estava o prédio da prefeitura de São Paulo. No dia seguinte esta cena foi capa do jornal Folha de S. Paulo, em uma imagem do fotógrafo Nelson Antoine. Aqui estamos publicando outra imagem, de autoria desconhecida, que mostra o bandeirão. (Graziela Kunsch)

EVENTO: No dia 6 de junho de 2013 o Movimento Passe Livre bloqueou a Av. 23 de Maio com uma barricada de catracas de papel pegando fogo. Ao fundo, do alto do Viaduto do Chá ao Vale do Anhangabaú, o movimento posicionou uma enorme bandeira com a frase “SE A TARIFA NÃO BAIXAR SÃO PAULO VAI PARAR”. À direita estava o prédio da prefeitura de São Paulo. No dia seguinte esta cena foi capa do jornal Folha de S. Paulo, em uma imagem do fotógrafo Nelson Antoine. Aqui estamos publicando outra imagem, de autoria desconhecida, que mostra o bandeirão. (Graziela Kunsch)

 

 

 

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Experiência

Escrito por vocabpol em 11122014 Categorias: ação, atelier, encontro, entradas, índice

// por Breno Silva

Uma questão de não saber. Limitações de linguagens. Bocas espumantes. De um visco que engasga e engrossa quanto mais se quer dizer. Transbordamentos. Não se confunde com a interioridade do acúmulo vivido nem tampouco se contenta com as definições em geral. A experiência é avessa à representação. Olhos virados. Apontados entre o fora e o interior num grau de coincidência com o sol escaldante. Olhos fritos. Riscos de aparição. Lampejos neons no escuro forçando as vistas. Intuições vagas. Disposição ao perigo numa travessia perigosa. Aderências elétricas epidérmicas. Já estava ali, mas não se sabia da situação. Coincidia com disposições desenquadradas. Quando se menos espera, abalos. Deslizamentos dos rostos por insurreição das montanhas sobre a domesticação daquelas esculturas modelos em Rushmore. Perder a cabeça. Acontecimentos silenciosos. Ceder sem querer. Uma avalanche em achatamento temporal. Fervilham outros. Alterações em movimento. As insubordinações de outrora assumem tantas formas movediças. Intensidades lançando a garantia do sujeito ao limite de sua exterioridade. Violências elementares. Fora de si, uma coincidência com vários outros, inclusive com aqueles que o dilaceram. Desprendimentos. Radical livre: alter. Em alteração, uma estranha “comunidade” emerge da fervilha. Tentativa frágil de se agarrar na avalanche. A paisagem já era. As ações, as pessoas, seres diversos, objetos, fluxos de pensamentos e desejos, inomináveis, dançam sem coreografia. Num instante fulgurante, a vida nas diferenças em excessos de presentes atualizando sua nudez. Furos à brasa na realidade. Aberrações à vista. Derivam arranjos de sociabilidades improváveis. Escapes para rearranjos políticos obscuros? Dobras entre línguas úmidas. Gostosas aberturas. Para quem experimenta, tais arranjos até fazem algum sentido em expressão poética. Tudo mais simples que essa escrita. Sensações de tufões.  Horror e maravilhamento. Enterrando o sublime. Uma comunicação fraca sibila ao redor. Algo não identificado, porém, risível. Comunicação da experiência. Para quem viu de fora, escutou ou leu depois, aquilo parecia um êxtase inexplicável, algo imperceptível, um escândalo. Um mistério instantâneo. Pregnâncias. Um fio tênue de duração cindindo para outras experiências.

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Forense Capenga

Escrito por vocabpol em 09122014 Categorias: conversa, entradas, gesto, oficina

// por Raphi Soifer

pensando o capenga forensicamente (em voz alta e sotaqueada)

(conversa entre Raphi Soifer e Linguagem forense: a língua portuguesa aplicada à linguagem do foro de Edmundo Dantès Nascimento)

A linguagem socializa e racionaliza o pensamento.

o que é capenga é pensado e socialmente inserido, mas não consegue se racionalizar. o capenga age sobre o pensamento de uma maneira um pouco torta; desracionaliza, enselvagereia.

A linguagem literária tem 4 qualidades essenciais:

concisão
clareza
precisão
pureza

o capenga não sabe lidar precisa ou puramente, não busca clareza e nem concisão; na real, nem sabe que devia estar buscando. mesmo assim, é efetivo, acaba funcionando (mais ou menos). mas ele não apenas funciona, ele existe, se enuncia na própria falta dessas qualidades essenciais, se mostrando possível.

o capenga sabe mais: sabe que toda qualidade que se diz essencial é capenga por si só, guarda algo torto na sua base, no cerne da sua proposta de ser definitiva. uma tortura, porque articular uma linguagem que se diz forense requer excluir tantas outras cuja efetividade reside no afeto, requer expulsar tantas gírias queridas e acertações poéticas tidas como erradas. se a língua forense racionaliza, o capenga sente. e toca, e atinge.

O verbo ATINGIR é transitivo direto, isto é, rege objeto direto – sem a preposição A – no sentido físico de “tocar”, “chegar a”, “alcançar”, ou noutro de “compreender”, “perceber”, “dizer a respeito”.

se é que exista uma linguagem forense para explicar o capenga, ela é a gambiarra que consegue atingir o pensamento sem se socializar, sem exatidão, mas sempre funcionando. e aqui sou eu na maior gambiarrice, atingindo a cidade sem clareza nem concisão e sem a preposição A. eu mergulho estrangeiristicamente no rio de janeiro. eu me situo por aqui, funciono, alcance com um toque capenga.

voltando de uma primavera fria na gringolândia de onde venho, atinjo o rio de janeiro com toda a força do meu estrangeirismo. alguns dias depois, a polícia “pacificadora” do morro dos macacos consegue atingir um menino de 8 anos com uma bala na cabeça. mesmo acostumado com esse tipo de notícia (algumas semanas antes, logo depois de invadir a maré, militares mataram uma criança de 4 anos e uma avó de 67 em poucos dias) sinto-me mais pessoalmente atingido pelo acontecimento no morro dos macacos. conheço algumas crianças de lá, que descem de vez em quanto para jogar capoeira com o grupo onde eu treino (capengamente e sem nenhum equilíbrio). não sei responder, não faço nada diretamente sobre o acontecimento além de escrever algumas poucas linhas que não mostro para ninguém.

a violência também é capenga, mas nem por isso deixa de ser eficaz. o forense responde tentando enquadrar a violência dentro de um regime claro, conciso, puro e preciso. por isso mesmo, o forense é violento por si só: representa uma invasão definitiva e decisiva à base de palavras quase inevitáveis.

É impossível rejeitar uma palavra estrangeiro; quando vem denominando um objeto novo, uma invenção, uma idéia. Neste caso, o recomendável é aportuguesar a palavra, como temos feitos com boné, turismo, uísque, Nova Iorque, etc.

o estrangeirismo que persiste sendo falado também é eficaz e tão essencial, quase inevitável, que não pode ser substituído. dizem que não dá para traduzir a palavra “saudades”. nem a palavra “capenga”, e nem “gambiarra”.

não é o caso de eu me sentir à vontade aqui por achar o brasil um país capenga, mas talvez seja por eu não ter que essencializar ou traduzir o que eu tenho de capenga. talvez seja que minha vontade venha por eu sentir uma permissividade de ser uma figura capenga por aqui. talvez eu estaria meio torto em qualquer lugar, mas é bom saber que o que eu mais tenho de capenga seriam justamente meus estrangeirismos: meu sotaque, modo de andar, uma certa falta de esperteza (ou talvez de malandragem).

sou gambiarrista, ou de repente gambiarreiro, e diariamente capenga. (o capenga forense seria tanto o protocolo de prorrogação do meu visto de estudante quanto as minhas constantes tentativas de convencer novos conhecidos que eu sou de brasília, ou do acre). o estrangeirismo sempre será uma gambiarra, uma identidade bricolada que, na falta de uma ferramenta mais oficialmente estruturada e capaz, serve para juntar línguas, pensamentos identitários e ritmos de se conduzir no mundo.

(eu soube por facebook que a melhor tradução entre 2 línguas é o beijo. e de fato, não me lembro de alguma vez ter gostado de um beijo forense.)

A crase representa essa construção:

a – preposição – palavra invariável

a – artigo feminino – palavra invariável

a crase se encontra quase presa, pré-determinada pela construção de relações entre palavras invariáveis.

a crase só consegue fugir desta inevitabilidade através do estrangeirismo, que nem no próprio nome do Edmundo Dantès Nascimento.

ou seja, a crase só se liberta da preposição A, só consegue atingir diretamente quando sai das determinações invariáveis para se jogar em colocações minimamente exóticas e potencialmente capengas.

(ou seja, o capenga propõe sempre alguma saída.)

Referência:

Linguagem forense: a língua portuguesa aplicada à linguagem do foro de Edmundo Dantès Nascimento: revisão Ana Maria de Noronha Nascimento. 10 ed. atual e ampl., 7a tiragem. São Paulo:Saraiva, 1999. p. 3, 15, 32, 113.

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